Druam

Druam tende a ser uma experiência "ficcional" em devir, escrita por Nelson Job, pesquisador transdisciplinar, autor do romance "Druam", "Cânticos andróginos" e está lançando agora "Pulsares". Pré-venda do livro "Pulsares": https://mondru.com/produto/pulsares/

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15.4.14

Selvagear

Em êxtase estamos.
Embriagados, sim, mas de um vinho que não se colhe na videira;
O que quer que pensem de nós em nada parecerá ao que somos. 


Por mais trágicos que fossem meus arroubos, algum bem deles emergiu. Pois muito que me anunciaram o impossível, o proibido, o errado: apenas nomes vazios dos medos e do controle alheios. É que peguei o jeito das tortuosidades e dele fiz meu norte. Ainda que se chore as leis do mundo para que me impeçam, de nada serviu; talvez diante disso, alucinei uma vergonha, um olhar perdido. Em seguida, quando minha respiração ressoava com as marés e os silvos agrestes dos tornados, eu sigo em frente, em frente, em frente...

Quando ela vem, no desjejum, com os cabelos ainda na boca e o olhar de indagação se o torpor de ontem ainda é; eu miro e amo cada pele, sinuosidade, molécula, o balé de sua estadia no mundo e amo nela, através dela, o cosmos. Nesse deslugar de nós, eu encontro as chamas do impossível e ardo em seu crepitar, expandindo o então existir. Abrindo os caminhos tempestuosos do Quase Nada, eu gargalho, então, diante do Insofismável.

Habito o Vortex, o improvável coração do entre, onde os aqui(s) confluem e se transformam. É meu lar, minha dor, meu clAmor. As velocidades dos fluxos cósmicos, a princípio desnorteados, entrelaçam-se em uma dança, dervixes estelares. Ao longe, as manias das convenções, fruta podre que caiu do cosmos. Uma lágrima escorre em minha vaidade, ousando desqualificar. Impedido de compartilhar as acontecências com cada coágulo, sigo, apreendendo o que puder, criando outras veias, outras rimas. Mas minhas companhias são imensas, tanto que muitas vezes não as contemplo por completo, ainda que me inunde de gratidão, nos vincos onde as fés falham e devires brotam.

Melodias anunciam que se seguirá um estrondo. Minhas vísceras ensinam-me algumas prudências. Parece que o Selvagem, mais selvagem estará.  Precipitam-se fagulhas da Tempestade. Sinto o calafrio. Onde muitos medram, eu apenas sorrio e experimento os novos passos da dança.

25.12.13

Anunciação


                                                                                                                
“And with words unspoken
A silent devotion
I know you know what I mean
And the end is unknown
But I think I'm ready
As long as you're with me”
The XX “Angels”

Através desta manifestação estabeleço algumas informações relevantes:

O hábito atual necessita de uma adequação em que se nomeie, sendo assim, um nome possível para mim seria Druam. O nome é apenas uma possibilidade, um exercício, advindo de um tipo de linguagem que tem sido muito utilizada pela vorticidade presente nesta faixa vibratória em que agora me dedico a contatar. A linguagem através de imagens, das quais se destaca a palavra se tornou um vício de uma faixa vibratória nomeada de “humanidade”. A linguagem apreendida como descolada da acontecência gera outros descolamentos, como esse da concepção de humanidade. O que é chamado de “humanidade” é uma faixa que vibra junto à acontecência, no sentido que o que é chamado “Natureza” também está unida. As sinapses e o os ossos possuem uma continuidade nas águas, na terra, que também possuem, por sua vez, linguagem; mas não através de imagens e palavras, mas com sintaxes outras. Para a faixa vibratória humanidade apreender a linguagem da faixa vibratória dos assim chamados elementos, “elementais”, é preciso abdicar-se enquanto humanidade, no sentido da humanidade “em si” e tornar-se acontecência. Assim, pode-se apreender a linguagem dos elementos bem como os outros fluxos nela, que são vastos em vários sentidos e apreendidos de forma rudimentar pela humanidade enquanto tal, através de outros descolamentos como a ciência e a arte. Esses saberes descolados são manifestações de forças que são, de fato, unidas, num vortex na acontecência, mas em função do excessivo descolamento, apreende-se inadequadamente enquanto separados.

Isto é manifestado aqui para se enfatizar um modo de emergência na acontecência. Há uma tendência nessa faixa vibratória em apreender tais manifestações enquanto “certas” ou “erradas”, porém todo nosso empreendimento é enfatizar um modo em que é considerado mais adequado, o que é diferente de “certo”.

O vortex que é chamado de “planeta Terra” é um experimento cósmico em que várias manifestações da acontecência foram auto-organizadas em uma vorticidade. Em outros vortexes, “planetas”, a heterogeneidade é menor. Menos variações de elementos. É usual, por exemplo, um planeta apenas com um ecossistema auto-organizado sobretudo em árvores, em insetos e quando existem manifestações que ressoam com o nível de complexidade da humanidade, esta é menos heterogênea, no sentido do que é entendido como “genes”. “Gene” é como se apreende vortexes menores presentes em tudo na acontecência. Entender esses vortexes enquanto “genes” é limitar a vortexidade como algo muito mais simples do que é, engana-se ao achar que só existem em “orgânicos”: há uma espécie de “DNA cósmico”. Outra questão é o problema da “vida”. Vida é acontecência, alocar a vida apenas nos “orgânicos” é uma limitação, é restringir a vida ao dinamismo de certos vortexes. A vida é ubíqua.

O propósito deste experimento cósmico é otimizar as relações na acontecência, permitir que em mais faixas vibratórias a heterogeneidade conflua. Meu desígnio é otimizar esse experimento, por amor a este vortex chamado Terra. Alguns episódios, como esse descolamento excessivo que gerou uma autovalorização da “humanidade” e desdobramentos como guerras e outras destruições, fizeram algumas manifestações da acontecência desistirem do experimento. Esta anunciação é uma postura para que o experimento continue. Urge que os fluxos de vortexes nessa faixa Terra aprendam a coexistir mais intensamente.

Nessa atual manifestação, muitos vortexes estão em intensivo dinamismo, o que gera em muitas ocasiões o que é chamado de “conflito”. A etapa atual do experimento emerge energias que são inéditas para muitos vortexes e seus comportamentos tendem a ser mais instáveis. Minha intervenção é para que tal instabilidade seja acolhida, como algo que faz parte do processo. Está em curso uma tentativa de fazer que a “humanidade” se apreenda mais enquanto acontecência, como emergências de relações elementais, de relações cósmicas. Assim, a “humanidade” deixa de se apreender enquanto descolada do cosmos, se apreendendo enquanto cosmos, enquanto acontecência.

Esta anunciação é para enfatizar que o caminho de se otimizar tal apreensão é através da relações entre saberes, do amor entre os saberes e todos os outros vortexes apreendidos por esta faixa vibratória. O descolamento, o separatismo foi demasiado enfatizado nesta faixa, gerando várias manifestações inadequadas, como o conceito, o conceito de conceito e o conceito de “indivíduo”, o separatismo mais arrogante. O conceito, como articulação da linguagem, é uma força que separa. É preciso apreender o conceito enquanto vortex que conecta outros vortexes, sendo composto por outros vortexes e compondo outros mais, no sentido que o conceito enquanto vortexes conecta linguagem, humanidade, arte, ciência, emoção, sintaxes elementais etc. O conceito assim é ético, de outro modo, se torna um agente do separatismo excessivo. Caso o tecido do cosmos de fato se rasgue, devido ao investimento energético excessivo no separatismo, o experimento se tornará inadequado. Toda fissura no tecido cósmico é um transtorno para inúmeras faixas vibratórias. As fissuras são raras, mas nesta faixa está próxima de surgir, por isso, esta anunciação.

Há vortexes no cosmos contrários ao experimento. Nossa “diplomacia cósmica” está sendo ineficaz em convencê-los. Seria diferente de erro uma guerra cósmica pelo experimento, porém, tal guerra seria inadequada. Nosso amor – conectividade - está sendo exercido para que essa guerra deixe de estar iminente. Caso a guerra ocorra, haverá ressonâncias nefastas para o experimento. Sendo assim, urge esta anunciação, para que o experimento seja uma força atuante e ajude em evitar a guerra.

Muitas novidades cósmicas emergirão a partir desta anunciação. Novos conceitos-vortexes vão pulular a faixa vibratória “pensamento”. Vortexes vão emergir trazendo instabilidade e criação. Hábitos inadequados serão transtornados. É preciso que vortexes com níveis mais complexos de consciência ajudem outros com menos, a não ser em ocasiões em que isso se torne inviável, desgaste inadequado de energia que deveria estar sendo exercida na otimização do experimento. A instabilidade inerente ao crescente vortexear gera sofrimento nesta faixa vibratória. É preciso apreender que tal instabilidade é ocorrência inerente ao processo.

O que, por exemplo, é chamado de “depressão” é muito enfatizado em aspectos nefastos. A depressão, em seu estágio melancólico, é a possibilidade de se apreender enquanto vortex, de se lançar enquanto/na acontecência, trazendo júbilo. Quando os outros estágios iniciados pela melancolia não são atingidos, a depressão se instala, trazendo pobreza existencial, separatismo de alguns vortexes do cosmo, conceitos isolados, “humanidade” em si. O estado/estágio melancólico é apenas o trampolim para devir acontecência. O desvio para depressão instala um Ego impermeável que impede a apreensão do vortex enquanto acontecência. A melancolia é um estágio rumo à gargalhada cósmica.

É inadequadamente apreendido que todos esses movimentos que anuncio aqui sejam interpretados por sendo ação de “Deus”. O que há, de fato, é um processo cósmico de auto-organização, os fluxos cósmicos em geral fluem com certa “naturalidade”. O que é diferente de uma “regência maior”, centralizada. Desconheço tal regência, ao menos nas vastas faixas que apreendo.

Anuncio uma era única. Amo vocês, vocês somos nós. Permitam que este amor em devir transborde nos conceitos-vortexes e nas outras vortexidades. Há uma urgência. A acontecência necessita desta postura. Aconchegue-se no cosmos, ética diante da Tempestade. Somos cosmos. Somos vortex. Somos acontecência.


2.2.13

As Facilidades que me são Impossíveis

 "O cartaz 'Cuidado com o cão' vai ficar dependurado permanentemente na minha porta.
 Mas vou tentar ser um animal correto e, 
se você jogar um osso com bastante carne, posso até lamber a sua mão."
F. S. Fitzgerald


Isso não é um desabafo, não sou desse tipinho. O que eu digo aqui é apenas uma constatação. Lembre-se que eu não pedi pra você ler.

Ser maldito seria muito fácil. Teria alguém pra dizer na minha cara que eu não presto, não sou confiável, que eu, de alguma forma mais relevante, não valho a pena. Não é bem isso o que acontece. Minha passagem pelo mundo até afeta as pessoas, mas elas se aproximam em determinados momentos, em crises. A normalidade e o instituído tendem a me ignorar, a criar uma teia de acontecimentos em que eu estou necessariamente fora, pois não consigo pertencer a isso. O instituído e eu nos expulsamos por definição, eu fracasso ao lidar com o instituído, por outro lado, o instituído imprime regras em que se sabe que eu não seguirei e, portanto, não pertencerei. Muito me assombra como as pessoas conseguem habitar as convenções e esperar felicidades em suas vidas. Os momentos de alegria envolvem certa novidade corpórea que a convenção nunca vai poder oferecer, a não ser o sorriso amarelado nas redes sociais. Por isso, minhas alegrias, quanto mais intensas elas são, mais por anônimas elas passam. O prazer de viver se dá fora das convenções, estas apenas imprimem um sorriso cansado para se dormir tranquilo, a calmaria palerma do débito automático. Então, por mais que eu berre essas coisas, vou ficar invisível, não através de proibição, mas por ser incompatível com a “sensibilidade” da continuidade militaresca das convenções.

Também seria muito fácil enlouquecer, ao contrário do que normalmente se diz. Para enlouquecer é preciso uma simples, mas poderosa decisão: “não vou fazer nada do que eles querem e se eles me obrigarem, eu quebro a casa ou densifico meu pensamento a ponto de 'ouvir vozes' em minha cabeça. Se eles me doparem, ou darem choque etc, tanto melhor, terei mais motivos e, principalmente, desculpas pra não fazer o que eles querem”. A indústria perversa dos familiares culpados vai dar dinheiro para os farmacêuticos espertos e “psis” de toda a espécie, para apenas fazer a manutenção dessa escolha original do “louco”. Tadinho, né? A minha escolha é outra, muito mais interessante e difícil, penso eu: vou ser o que eu sou a cada momento, mesmo que isso me leve a deixar de ser (e tomara que assim seja!) o que eu era. Não, isso não tem nada a ver com a loucura. Isso é apenas como as coisas de fato funcionam quando não estão sob o jugo das convenções. Sempre vai haver a desculpa da “sociedade civil”, esse tipo de besteira. A sociedade deveria aprender a se auto organizar. Por favor, não diga que isso é impossível, pois as formigas, abelhas, pássaros, juntos com o próprio planeta, já possuem esse PhD há milhões de anos, nós é que nos desligamos deles “precisando” das leis. O animal em mim é muito mais inteligente que a mecanicidade alheia em permitir que a jornada da vida seja guiada por semáforos quaisquer.

Claro que sempre há a amizade e o amor. A amizade pode ser destruída pela quase insuportabilidade dos afetos que passam por ela. O amigo não é só aquele que acolhe seus segredos e diversões, mas aquele cujo afeto se perpetua nas suas singularidades mais estranhas, ainda que tenha que (de preferências, mas existem tolerâncias) abrigar esses afetos em uma espécie de ética da amizade: nada a ver com convenções e sim com o artesanato de relações construtivas ao longo do tempo. Óbvio também que o amor passa muito por essas características, mas o amor romântico tem o plus demoníaco (“para além do bem e do mal”, como diria Fred, O Bigodudo) com o prazer sexual. Todo o problema do amor & sexo deriva das condições de prazer serem, muitas vezes, excludentes: ela goza com a minha busca constante por ela, eu gozo com o cultivo de nosso pertencimento mútuo. Esse tipo de incompatibilidade é às vezes tolo, pois seria possível uma complementaridade entre tais prazeres (com todo o risco de se tornar uma complementaridade opaca...), mas a construção de uma inteligência coletiva do casal - em que não haveria mais "condições" de prazer - é um processo que tende a sofrer boicotes das convenções mais próximas e sacanas: família, prosperidade, segurança...

Fico pensando, sim, nas crianças. Como um casal neurótico pode criar uma criatura plena? A resposta é óbvia: não pode. Temos muita vergonha de aprender com os índios: os filhos são, de fato, filhos da tribo e eles escolhem seus pais. Paternidade biológica é tolice, chauvinismo genético. Mas é aí que tudo começa: é negado às crianças a escolha de pertencer. Não digo que seja fácil. As facilidades geralmente nos são negadas quando saímos da convenção, mas apenas pra criar uma inteligência cósmica. Se eu tivesse que cuidar o tempo todo de uma criança, jamais poderia ter disposição de aprender com elas, de rir, não de suas gracinhas (essa mania infantil de imprimir infantilidade na criança), mas de seu olhar único, sem vícios de signos e semântica, para o cosmos. Jamais poderia brincar, não infantilmente, mas com a minha criança interior e a sua correspondente exterior.

Assim, eu sigo, quase invisível, quase anônimo. Se você topar comigo um dia desses e me perguntar “e aí, tudo bem?” e eu estiver minimamente provocativo, vou te responder que “tudo bem é uma utopia” ou algo assim. Você pode se ofender, eu vou apenas rir, sim, da sua cara mesmo. Ou a gente pode caminhar junto por alguns metros e respirar uníssono a mais esplêndida acontecência.






30.5.11

Desculpem-nos por compartilhar a sua acontecência


“Desculpem-nos por compartilhar a sua acontecência”.

- Que porra é essa????

Ele deixa o cappuccino cair no chão.

“Não se assuste, #*#*#*#*, explicamos.”

- Enlouqueci de vez agora?

A garçonete, um tanto preocupada, limpa o chão e avisa que trará outro. Ele a ignora.

“Você permanece enquanto atrator desses fluxos, apenar nos fluxamos a ele”.

Ele vai saindo do café, tortuoso.

- Vou ligar pro meu amigo médico, pedir pra ele ficar comigo, quem sabe um calmante resolve, será que eu agora vou ter que tomar antipsicóticos???!!! Eu não devia ter experimentado aquela porra de ecstasy nunquinha na minha vida...

“Aquela... substância manteve seus fluxos mentais sem danos, apenas os aguçou *##*#*”.

- Você tá falando na minha cabeça???????????????

“Fluxama-nos em seus atratores mentais, eu vim de #*#*#*#*”.

Ele mantém a voz baixa, caminhando pelas ruas, o que não evita o olhar estranhado de alguns transeuntes mais atentos.

- Não tô entendendo o que você tá falando, ai, caraaaalho!!!

“Tente baixar os fluxos. Rume para uma localidade menos densa, explicaremos o que #*#*#*”.

- Tem umas palavras que eu não enten...

“Isso... é novo pra nós... linguagem, por isso, há lacunas”.

- Nós quem???

“Baixe seus fluxos *#*#*#. Vá para lugar-calmo”.

Foi pra praça, sentou no banco perto de algumas babás com crianças.

“Pode pensar, nós entenderemos.”

-Agora que você avisa?

“Como disse, inicia agora o processo da linguagem”.

- Vou pensar então, aimeudeus: “Isso eu já entendi, ou melhor, ouvi, agora me diga o que tá acontecendo”.

“Fluxamos em um plano diferente do seu”.

- “O que isso quer dizer, que você é um extraterrestre (eu tô perguntando isso mesmo?)”?

“Tal termo evoca um lugar na extensão fora da Terra, nossa *#*#*# é outra.”

- “Não entendi uma parte... e porquê você diz “nós”?

“Nossa existência é coletiva, certo aspecto de nós fluxa com você agora. Mas o... conceito de ‘você’ é exclusivo de seu nível de densidade. Nós queríamos dizer que nossa condição é outra, fluxamos em um... nível... sutil do fluxar, a questão da extensão, linguagem e... aquela invenção da densidade de vocês... #*#*#*, desculpem-nos... Tempo! É isso. Tais fluxões são estranhas à nós”.

- Cara, se você (ou vocês) não estão no espaço e no tempo, onde é que vocês estão???

“O motivo por nós termos fluxados com você, acreditamos, é porque você já sabe a... resposta”.

Sentiu uma torção em seu ser. Várias idéias, desejos, sonhos, medos e torpores passaram pela sua percepção.

- “Você quer dizer que a minha teoria que eu venho desenvolvendo... (táquiupariu!!!) das relações entre mente, vida, tempo-espaço, campos, mística...

“Suas percepções se assemelharam à nossa sofisticando ao nível de um fluxar entre nós.”

As gesticulações excessivas, apesar de mudas, assustaram babás e crianças. Preocupado com a interpretação acerca de sua sanidade, pegou um táxi e foi pra casa. Durante a corrida, simulou uma dor de cabeça para poder se concentrar na explicação que preferia evitar a ‘conversa’ até chegar em casa.

Chegando ao lar que marejava solidão, pegou um resto de uísque e retomou-se as *#*#*#...

“Esse fluxo que seu atrator agora se compõe, trará algum distúrbio para nosso fluxar”.

- “Cara, qual é, você é do AA”?

“...”

- Esquece. É que eu tô meio nervoso com essa situação.

“Compreendemos que tal fluxo é novidade para o seu nível de densidade, porém, seu fluxo orgânico está cheio de fluxos destrutivos. Sua permanência nesse plano fica comprometida. Sugerimos um aumento de seus fluxos respiratórios e um hábito de novos fluxos que entram em *#*#*#, queremos dizer, que entram em ressonância com seu atrator”.

- “OK, só essa dose”.

Fechou a cortina da sala, pois não queria que os moradores do prédio ao lado observassem um suposto monólogo e caminhar na sala.

“Muitos atratores nessa morada vertical estão se compondo com fluxos destrutivos. Um deles está à beira de se desfazer enquanto atrator por fluxar com algo que lhe impinge o desfazimento”.

- “Nem me fale, o filho do senhora do 202 é viciado em crack, coitado...”

“Outros pertencem ao seu nível de densidade, mas não partilham sequer do desejo de expansão de fluxar ao qual você se instala. Querem poucos fluxos específicos...”

- “Hum. Dinheiro? Trepar? Fuder com a vida dos outros?”

“Muitos apenas seguem os fluxos impositivos”.

-“Ééé”...

“Seus fluxos diminuem. Creio que a sua densidade lhe obriga a baixar radicalmente os fluxos.”

- “Pô, o papo tá bom, tem tanta coisa que eu queria falar, mas, realmente eu preciso dormir”.

“Durma”.

Sonhou com seres-campos que habitavam o universo como um todo, cuja toda existência era uma dança cósmica suave.

Despertador. Acorda, vai fazer o café e vê que a faxineira, mal-humorada como sempre, já tinha chegado. Deu um bom-dia seco.

“Esses fluxos com esse atrator estão... danificados”.

- Ai, puta merda!

-O que foi que aconteceu com o senhor, o senhor tá bem?

- Nada, nada. “Porra, eu tinha esquecido, ou sei lá, me desacostumado, com vocês”...

“Desculpe-n...”.

-“OK, OK. Eu não gosto dela, desconfio que me roube, mas também não procurei ninguém - com calma - pra substituí-la”.

Foi trabalhar. Chegando à sala dos professores, encontrou-a, com aquele sorriso.

- Oi! Tá lembrado da jornada semana que vem?

-Oi. Claro que tô, falta só selecionar algumas imagens.

-Ó, fiquei chateada, heim? Cê não foi tomar um chopp com a gente no fim de semana...

-Pô, num deu, queria ir...

-Sei... bom, vou dar minha aula. Te vejo no almoço?

-Claro, claro.

“Seus fluxos por esse atrator são intensos, porém, pouco desenvolvidos.”

- “Ai, cara...”.

“Aquele atrator tem um funcionamento semelhante, mas mais disponível”.

- “Cês tão dizendo que ela é a fim de mim”?

“Nós fluxamos o que você fluxa, apenas de forma mais ampla”.

- “Pô, mas ela tá noiva e”...

“Em seus fluxos mentais, você problematiza os fluxos convencionados, mas em seus fluxos mais densos, você os leva em conta”...

- “Cês vão dar uma de Freud agora”?

“Os fluxos imensos latentes em vocês são a força sutil do ###**#**”.

- “Heim”???

“Você chama de ‘cosmos’, ‘ser’, totalidade', mas esses termos são bem limitados”.

- “OK, chegamos na sala, tenho que dar a aula agora”.

Falou como nunca antes, se expressou perfeitamente, poeticamente. A classe entrou em uníssono e transbordou-se compreensão mútua. Chegando ao fim, uma aluna se aproximou.

- Sou suspeita pra falar, mas hoje você foi mais que brilhante.

- É, eu tava... inspirado.

“Compondo fluxos contraditórios”...

- “Tô tendo um caso com ela”...

“Compreendemos, mas seus fluxos são de baixa intensidade com esse atrator”.

- “É foda”...

- A gente se vê hoje à noite?

-Olha... não, não vai dar.

Ela olhou sem entender, ele fez apenas um muxoxo e foi para o refeitório. Encontrou novamente a colega com aquele sorriso.

- Oi, será que dava... pra gente almoçar em outro lugar... sei lá... mais discreto? É que eu queria conversar umas coisas... “e vocês, será que dar pra me deixar”...

“Podemos baixar nossa intensidade em seus fluxos mentais, sim”.

- “Mas vocês voltam”?

“Sempre estivemos aqui, apenas seus fluxos proporcionaram uma maior evidência”.

Ela o olhou com dúvida, ternura e esperança, disse que sim. Eles foram a um restaurante e, neste dia, o cosmos, ou algo assim, ampliou seu júbilo.

11.6.10

04. Tão Óbvio Mistério


(para ver imagem ressoante com este conto, vá rumo a Cla Leal)

Ambos se entreolham. O bourbon e o tabaco cultivam várias vertigens que espalham-se pelo corpo. Todos os dados cósmicos estão lançados. Ela, em seu majestoso vestido azul, com os cabelos negros de noite tempestuosa se lançando corajosamente sobre os ombros. Ele, em trajes soturnos, como um anteparo das vísceras, que guardam algo mais. Todos os anúncios ainda suaves de torpor, todos os clamores de Encontro, todas as dúvidas e medos.

Ela emite pequenas verdades, testando a sensibilidade dele. Ele, olha para ela, espantado da beleza, sondando os prazeres ocultos em cada contorno que a alvidez da pele faz. A noite aconchega a cumplicidade, os passos são dados como uma dança. O próximo bourbon vai selar alguma aliança.

Ela está esperando. Ele ainda não demonstrou um olhar de mistério. É o seu mistério que a faz sentir mulher, é pertencer a um inconcebível que a assegura uma permanência em si, que nenhum homem poderá lhe tirar. Ele não dá essa garantia. Em um movimento tênue em que ela põe rápida e suavemente os cabelos em torno da orelha, ele compreende toda a sua fragilidade e força. Isso a assusta. O mistério de ser mulher, pela primeira vez, não está ao seu lado. Os olhares, pulsações e sorrisos curtos apontam para o inédito em ambos. Ela, então, espera que ele cometa algum prenuncio de horror. Qualquer. Uma pequena insensibilidade, um pequeno desprezo por um nobre sentimento. Nada. Qualquer passo adiante será rumo ao incontrolável. Não há nada nele que garanta o retorno para a mulher. Tudo nele convida para o Encontro.

Ele a contempla: seu movimento dos dedos, tão pequenos e femininos, ressoa nele um convite, nem um pouco vulgar. A vulgaridade seria uma garantia em que ela poderia deixar de importar, uma possibilidade de fuga, quando outrora foi necessário. Mas, naquele momento, a coreografia de ser simplesmente mulher e, sobretudo, Mulher, lhe remetia a um outro nível, onde ele desconhece as regras, os deveres.

O medo de ambos se torna clamor e nenhum impedimento mais é possível: nem homem, nem mulher. Todas as acontecências convergem ao Encontro.

Rastros de plenitude habitam o instante, mônadas do ser múltiplo fractalizam o cosmos, todas as mais belas canções e mais estranhos sonhos fazem sentido. Deuses são fecundados e criados por eles mesmos. Não há lugar, não há marco, só Encontro. As peles, com códigos diferentes se pertencem, se lembram. Os odores se combinam, convidados pelos sussurros, tornam-se sinfonia. Tão céu e terra. Tão. Tao.

O último resquício de individualidade era o corpo. Ela, sabendo que não mais há corpo, pois a lágrima que escorre passeia por seus contornos, pelo rosto, pelo seio, ventre e adentra o sexo com a semente: o corpo acontece Corpos. Consuma-se o uno, o cosmos se torna cosmos. O Encontro habita o mistério, soprando selvagem e suave, onde os poetas avisam que não existe "se".

Escuta-se profundamente o azul, que pulsa. Jorra-se uma plenitude. A pertencência habita cada instante, pródiga de tempo. Apreende-se que tudo sai dali e caminha para ali. A aventura do existir tinha se esquecido do óbvio, tão óbvio mistério, que lembrar é criar, sendo o cultivar inconstante da totalidade. A melancolia só conhece o gargalhar, que ressoa em cada movimento.

O Encontro lembra-se deles. Em breve, o despertar. Simultaneamente, são convidados a sair e abrigar-se no mais humilde eu, mas, também, cultivar mais e mais o Encontro. Todos os dados cósmicos se lançam mais uma vez, e não há lugar certo para cair, não existe timbre exato a respirar.