Druam

Druam tende a estar sendo uma experiência "ficcional" em devir. Os contos têm sua ressonância conceitual nos blogs "Cosmos e Consciência" e "Oniric Ontology". O atrator de ambos é Nelson Job?

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job
Livro de Nelson Job que relaciona os saberes construindo uma nova apreensão dos sonhos com desdobramentos para para a acontecência. Para mais, clique na capa.

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4.11.12

A história em que se fundam todas as Histórias

Matriarca desperta do sonho em que ocorria a mais selvagem Tempestade. Ela, em onírica inspiração,  conjura a Vida, o Cosmos, os Deuses e chora em seus olhos e nas vísceras da Terra a Tempestade. A festa começa em toda a aldeia, porém, depois de muito torpor, o desespero toma conta, muitas cabanas são destruídas, a Tempestade toma conta do mundo. Na Aurora depois da Tempestade, o Menino se encaminha rumo à Matriarca.

- Eu...

- Você não pediu a benção, Menino!

-Matriarca criou a destruição para nós.

-Segui os desígnios. Assim é. A Tempestade faz parte do mundo, assim como o Sol e a montanha.

-Eu não quero mais os desígnios. Eu quero ir para a Lua!!!

-Ir para a Lua não é desígnio. Vasculhe sua Lua interior.

-Mas eu quero ir para a Lua!

-O firmamento não foi feito para o humano. O firmamento é firmamento, Menino.

-Mas eu quero...

-Não ouse perturbar os desígnios. A magia não tem querer, apenas fluir. Saia daqui e busque sua Lua interior. Vá!

O Menino saiu, com ódio e ansiedade no peito. Não buscou sua Lua interior e tramou nas penumbras como seguiria seus desejos. Por muito experimentar, conseguiu forjar uma adaga, uma primeira adaga, rústica, mas eficaz. Em uma noite mais sombria que o usual, ele caminhou mais uma vez rumo à Matriarca. Ela o olhou com esperança.

- Já descobriu a sua Lua?

- Sim, Matriarca, vim lhe mostrar.

Menino levou uma pedra esculpida em formato de meia Lua e entregou a Matriarca. Enquanto ela acariciava a pedra, Menino cravou profundamente a adaga em seu dorso. Menino, agora Homem, deixou a Matriarca sangrando e foi forjar mais e melhores adagas. As adagas se tornam lanças, flechas, espadas e outras ferramentas de guerra. O Homem se torna Patriaca, ordenando escravos e controlando mais e mais aldeias. Decreta o fim da magia. A marcha perpetua-se, a técnica do Patriarca gera muitas coisas: casas, automóveis, eletricidade, uma infinidade de objetos. O Patriarca, eivado do triunfo da ciência, inicia seu mais desejado projeto: sua nave majestosa se lança até a Lua.

Em sua tortuosa viagem, quase esquece de olhar a Terra, tão bela e azul, como jamais sonhara. Ele pousa, caminha pela Lua. Contempla a vastidão do Cosmos, ouvindo sussurros atemporais. Então, algo se passa nas entranhas do Patriarca: ele sente-se pertencendo ao Cosmos, emerge uma continuidade entre ele, a Lua, A Terra, o Sol e a imensidão; todas as alegrias, dores, prazeres, esperanças, ligações vizinhas e distantes se evidenciam. O Patriarca é Cosmos e tal consciência faz brotar dos seus olhos até nos limiares, as lágrimas da Tempestade, que tomam toda a vastidão. Patriarca percebe que a Tempestade não apenas destrói, ela muda os cenários, exige transformações, faz o imenso clamar-se. Percebeu que sua ciência é uma versão da magia tão odiada da Matriarca. A Tempestade é uma técnica cósmica, assim como sua nave é um desígnio. Foi quando o Patriarca, sôfrego, iluminou:

-Agora descobri minha Lua interior...

Patriarca, agora outro Homem, retorna o mais rápido que pode à Terra, e busca a Matriarca. Encontra-a quase morta, com seu sangue quase todo esvaído. Ele retira a adaga e usa todas as técnicas e magias possíveis para salvar a Matriarca, que curada, agora, Mulher. Eles se olham, compreendendo-se. Ir à Lua e descobrir a Lua interior são ambos motivações possíveis e complementares, tais como eles próprios. Homem e Mulher se abraçam em uma conjugação cósmica e mais uma vez lágrimas iniciam uma Tempestade, agora, a mais intensa de todas. O Cosmos se torna Tempestade, cuja intensidade explode em cada ínfimo. O Cosmos deixa de ser Cosmos e a Tempestade vai deixando de ser Tempestade. E então, toda a acontecência, em cada mais íntima filigrana, em inumeráveis infinitos e mínimos, emerge rumo ao Inconcebível.

2 comentários:

Carol Grether disse...

Não tinha lido mesmo.
" Patriarca, agora outro Homem....O Cosmos deixa de ser Cosmos e a Tempestade vai deixando de ser Tempestade....emerge rumo ao inconcebível"

Emerge rumo ao devir, puro devir?
É lindo o texto!!!

Nelson Job disse...

Valeu, Carol! Olha, eu acho q esse "Inconcebível" aí tem mais cheiro de transcendência a posteriori, né não?