Druam

Druam tende a estar sendo uma experiência "ficcional" em devir. Os contos têm sua ressonância conceitual nos blogs "Cosmos e Consciência" e "Oniric Ontology". O atrator de ambos é Nelson Job?

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job
Livro de Nelson Job que relaciona os saberes construindo uma nova apreensão dos sonhos com desdobramentos para para a acontecência. Para mais, clique na capa.

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7.7.13

Se louco ontem

When the night has no end
And the day yet to begin
As the room spins around
I need your love

E aí?

Fiquei louco ontem, né?

Olha, não tô escrevendo pra pedir desculpas. A única desculpa relevante é a mudança de atitude. Também não tô te escrevendo por desconfiar se você “gostou ou não” de ontem. Vários vetores de afetos e desejos passaram e passam por nós, é isso que interessa, como isso nos (des)constrói e nos impulsiona pro que virá.

Quando eu cheguei pra falar, logo notei você na plateia. Seu olhar desejante, ingênuo, sua paixão pulsante sem nenhuma promessa de prudência. Meu primeiro golpe de racionalidade foi me concentrar na minha fala e deixar rolar. Mas você foi me procurar; as placas vermelhas no seu corpo, principalmente nos seios que se anunciavam generosos no decote, a leve umidade do suor, o brilho inconstante no olhar, me hipnotizaram. Eu estava ali, diante daquela conjuntura errática de beleza, juventude e desejo fazendo com que o resto do mundo se tornasse um detalhe desnecessário.

Descemos juntos e tomamos um café. Não sei bem o porquê do café, ambos estávamos devidamente estimulados. Quando ninguém conhecido estava próximo, a conversa acerca dos limites das relações inconsciente-consciente, normalidade-loucura, natureza-cultura foi se tornando cada vez mais prática. Vi o seu suor aumentar, senti a minha pulsação cada vez mais intensa: o selvagem descompasso do corpo atravessado pelo tesão. Fomos pro elevador, não se importando mais se alguém via o despudor do ruído molhado dos lábios e línguas. Muito maior ainda, agora sei, a nossa imprudência em deixar a porta aberta do local da minha fala ao retornarmos pra lá nos despindo. Sem falar, é claro, dos nossos urros, enlaces improváveis de corpos (não sabia que a biologia humana comportava aquelas posições), intumescências, mordidas, arranhões, secreções, jorros.

Ao final, você longe de se sentir saciada. Eu, talvez, feliz pros próximos dois séculos. Fomos pro bar mais próximo. Coisas como “Ain’t no cure for love”, “The world in my eyes”, “Lovesong”, “Rollin' Stone” aumentaram minha intensidade. Fui, saudavelmente, quem sabe, perdendo meu senso  de qualquer coisa. Acordei aqui em casa, nunca o apartamento esteve tão desordenado. Fui buscar um comprimido pra dor de cabeça e vi seu bilhetinho, a letra tão desenhada quanto seus lábios, não importam quais. Alguns flashes atormentam minha memória, talvez eu deva evitar os vizinhos pelo som louco das nossas vozes cravejadas de insânias desejantes, por termos derrubado vasos e abajures, por termos feito aquilo na janela, sob o risco de algum adolescente insone ter espalhado um vídeo nosso pelas redes sociais, o escândalo do desejo: a triste epifania midiática que inveja e condena as epifanias íntimas? Por falar nisso, meu síndico está me cobrando uma nota por termos quebrado a câmera do elevador. Não sei se foi sem querer ou se nós queríamos os porteiros impedidos de assistir felação. Acho que não há câmeras nos corredores, vou procurar saber: não sei se alguém nos viu entrarmos seminus no apartamento. Ou o quanto foi ouvido das meus brados supostamente pornorrevolucionários acerca dos quereres, das paixões.

Fico imaginando se eu deveria ser responsável por tudo que fizemos. Por ter ficado louco ontem. O mais sincero de mim pensa: ainda bem. Mas não quero me furtar a acolher como tudo isso te atravessa. Pelo seu bilhete, intuo que você está atonitamente saciada. Outras emoções podem afluir. Que venham.

Sim, fiquei louco ontem.


Muito obrigado.

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