Druam

Druam tende a estar sendo uma experiência "ficcional" em devir. Os contos têm sua ressonância conceitual nos blogs "Cosmos e Consciência" e "Oniric Ontology". O atrator de ambos é Nelson Job?

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job
Livro de Nelson Job que relaciona os saberes construindo uma nova apreensão dos sonhos com desdobramentos para para a acontecência. Para mais, clique na capa.

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3.7.13

A mulher em meus sonhos

São turvas as minhas memórias mais remotas. Sei que sempre sonhei com Harriet. Na infância, em função de meus relatos acerca de “minha amiguinha”, meus pais a interpretaram como amiga imaginária e tentaram fingir que não se preocupavam. Entendendo a preocupação deles, um pouco mais tarde, lá pelos 6 ou 7 anos, parei de falar de Harriet. Sequer comentei com minha irmã, que nasceu depois desse meu silêncio. Mas Susan sabia, de certo modo, da existência da minha companheira onírica, pois ouvia balbucios meus chamando “uma tal de Harriet” durante o sono.

Brincávamos no firmamento, na Lua, em Saturno e dentro do vento. Harriet era linda e alegre, meus momentos com ela eram de extrema felicidade.

Quando chegou a adolescência, começaram as cobranças por uma namorada. Sem mentir, eu dizia que já tinha, mas nunca, evidentemente, poderia apresentá-la. Meus colegas na escola debochavam de mim, e minha família, mais uma vez, ficava preocupada. Por isso, me permiti sair algumas vezes com Giselda, uma moçoila bonita que sempre foi deveras simpática comigo. Até gostava dela, porque era um tanto cordata e conversava comigo sobre diversos assuntos.

Meus sonhos com Harriet se tornaram obscuros, com ela invariavelmente reclamando ou desvanecendo em fumaça negra, às vezes em fogo. Com enormes olheiras, Giselda reclamou que pesadelos terríveis “com uma garota muito má que sempre a ameaçava” mal a permitiam voltar a dormir, e compreendi que era o momento de terminar o breve namorico. Disse a verdade a ela, que tinha outra pessoa etc. Giselda, claro, chorou muito, ficou enraivecida, mas acabou entendendo. Soube que ela morreu em um desastre aéreo, mais isso foi muitos anos depois.

Meu relacionamento com Giselda, mesmo depois de terminado, acalmou um pouco os temores da minha família e as traquinagens de meus colegas. Harriet foi reaparecendo lentamente em meus sonhos da forma tenra que a caracterizava e que eu sempre amara.

Passaram-se os anos, eu, redator de jornal, feliz com a solidão diurna e o matrimônio onírico, comecei a ter também problemas no trabalho. Meu chefe, um tanto conservador, disse que daria a promoção a um indivíduo casado, que preferiria passar o cargo de editor para mim, mas que, infelizmente, seria dado ao Sloan. Fiquei um tanto magoado, pensava em fazer várias melhorias em minha casa. Minha mãe, sabendo do ocorrido, também se prontificou a me instigar, “mais que tanto eu queria um netinho...”. Nessa época, estranhamente ou não, estava sonhando um pouco menos com Harriet. Toda essa situação me fez, depois de anos evitando, ir a uma psicóloga.

A dra. Mildred era perspicaz, com um olhar bondoso e atento. Insistia, a princípio, que Harriet era meu lado feminino, meu ideal de mulher, aquelas coisas típicas do divã. Eu apenas olhava para o lado e voltava a falar da minha vida, do meu trabalho e, inevitavelmente, dos meus sonhos. Esses, sem Harriet, também eram comentados. Às vezes faziam mais sentido. Depois de um tempo, a dra. Mildred se interessava apenas pelos meus sonhos com Harriet. Pelas nossas viagens a outros planos de existência, as conversas com espíritos e extraterrestes, com incorporais, deuses e lendas. Pelo nosso sexo corpóreo, telepático, energético etc. Pelos nossos filhos, Stuart, Anne e Kroycner. Esse último não chegou a ter gravidez, que, aliás, a da Anne durou 9 meses, semelhante à realidade desperta, mas a de Stuart cerca de 3 anos, e o parto me fez ter vários pesadelos, envolvendo muita dor. Kroycner sequer tinha aparência humana. Não sabemos identificar qual é sua pertinência, sabemos apenas que o amamos muito, a despeito das tantas estranhezas que nos obrigava a lidar em nosso dia a dia – ou seria melhor dizer sonho a sonho?

Enfim, dra. Mildred me disse:
- Sua relação com Harriet, o amor de vocês... é a coisa mais linda do mundo. Não posso fazer mais nada por você, a não ser ficar escutando seus sonhos maravilhosos. Se você quiser, vá a um psiquiatra.
Eu me despedi da doutora, que tinha lágrimas nos olhos.

Os primeiros cabelos brancos me despontaram na fronte. Meu pai falecera e minha mãe estava doente. Susan, que se tornou lésbica, foi a minha casa com a companheira, Tera:
- Cara, vê se arruma alguém aê. Nossa família vai acabar, pô!

Não costumo dar muita atenção para as opiniões das pessoas, nem de Susan, mas ocorreu que, logo depois, fui demitido. Corria à boca pequena que o motivo era minha loucura. Percebi, tardiamente, que tinha o hábito de conversar com Harriet mesmo sem a presença dela, desperto. Acostumei-me tanto a sua presença que era como se sempre estivesse ali. Fui então ao psiquiatra.

O dr. Malbus foi muito cordial e rápido. Disse que meu caso não era tão grave, que já viu piores, e que me prescreveria uma medicação "muito leve". A verdade é que não era tão leve assim. Eu me sentia pesado, sonolento. Os sonhos com Harriet foram diminuindo; ela aparecia se despedindo, triste. Minha vida ficou insípida, mas consegui voltar a trabalhar em outro jornal. Uma tarde dessas, fazendo feira, ajudaram-me a escolher algumas verduras que não conhecia para fazer uma receita para a minha mãe, cada vez mais enferma. Quem me ajudou foi uma mulher muito serena, Joan, que me acompanhou até em casa. Convidei-a para um café, depois um almoço e, em seguida, um jantar, e foi quando começamos a namorar. Depois de alguns meses, nós nos casamos. Minha vida estava, teoricamente, completa.

Joan era uma mulher séria, uma botânica compenetrada, envolvida com causas ecológicas. Nasceram, com um intervalo de um ano e meio, nossos dois filhos, William e Leah.

William sempre foi muito ativo, e Leah, terna. Pena que minha mãe nunca a conhecera. Quando meus filhos estavam com seus 6, 7 anos, minha vida se tornou um tédio. Joan engordou e ficou um pouco bruta, apenas um pouco. Eu estava infeliz no trabalho e os remédios me adoeciam os rins, sobretudo.

Combinei com o dr. Malbus que tiraria os remédios devagar. Aos poucos, fui voltando a sonhar com Harriet. Ela não envelhecera, parecia um tanto apática no início, não me deixava ver nossos filhos. Lentamente, foi se tornando mais próxima. Revi meus filhos, eles sim, cresceram; apenas Kroycner se tornara outra entidade, agora mais etérea. Harriet pedia para que eu me separasse; eu falava que ficava preocupado com meus outros filhos etc.

Com o passar do tempo, Harriet e eu nos reaproximamos totalmente. Joan ficava um tanto incomodada com minhas ereções e ejaculações noturnas, sem mencionar os meus murmúrios. Eu, extremamente envergonhado, dizia que era “apenas um sonho”.

Joan estava ficando muito severa e amargurada. Eu, sem muitas opções, pedi o divórcio. Ela não discordou nem concordou.

Um dia, abracei as crianças, choramos juntos e fui embora. Aposentei-me e montei um jornal alternativo. Leah sempre me visitava, trazendo grande alegria; já com William, tinha que marcar, e muitas vezes, no encontro, me sentia enfadonho para ele. Em certas ocasiões, Leah chegou a relatar sonhos estranhos com uma entidade chamada “Kraycek”, ou algo assim. Comecei a ver vultos de Harriet pela casa, o que diminuiu muito minha solidão na vigília. Os vultos se tornaram cada vez mais nítidos, até que tive o AVC.

Fui levado ao hospital pelos meus filhos, fiquei com a metade direita do meu corpo um tanto paralisada. Depois de muita fisioterapia, conseguia andar de muletas. Mas agora via Harriet o tempo todo, algumas vezes via Stuart também.

A velhice foi se instalando, tênue e sorrateira. Harriet estava comigo no café da manhã, no breve passeio na calçada e até me acompanhava nas leituras. As enfermeiras comentavam entre elas que eu delirava, que conversava sozinho. Eu apenas ria internamente.

Em meu último sonho, Harriet disse sorrindo que me aguardava em breve. Acordei, comprei meu caixão e avisei (com certa dificuldade, pois as pessoas despertas não me entendiam direito depois do AVC) à enfermeira, que me cravou um olhar acusatório. Deitei confortavelmente em minha cama, vestindo o terno preferido de Harriet, e lentamente comecei a tremer. Minha visão foi ficando cada vez mais turva e uma vertigem suave, mas crescente, perpassava todo meu corpo. A enfermeira chegou, tomou meu pulso e ligou para a ambulância. Eu via breve e obscuramente meu quarto e, quase simultaneamente, via Harriet, Stuart, Anne e (provavelmente) Kroycner de braços abertos me chamando. O torpor tomava mais e mais conta do meu corpo, quase não consegui balbuciar:

- Harriet!!!

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