Druam

Druam tende a estar sendo uma experiência "ficcional" em devir. Os contos têm sua ressonância conceitual nos blogs "Cosmos e Consciência" e "Oniric Ontology". O atrator de ambos é Nelson Job?

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job

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Livro de Nelson Job que relaciona os saberes construindo uma nova apreensão dos sonhos com desdobramentos para para a acontecência. Para mais, clique na capa.

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10.6.13

Transpalavrar (Conto Experimental)



Ao meu redor, a realidade exata me arrasta cada vez mais para baixo,
fazendo o possível para me puxar para o fundo. Quem me despertará?
Max Blecher

Oi,
Você está lendo um conto. Poderia estar nas redes sociais, assistindo TV, comendo um sanduíche, sendo diplomata em meio a guerra, mas não: você decidiu gastar alguns minutos da sua vida lendo este conto.

Existem formas e formas de se encarar esta leitura. Você pode achar que é um mero entretenimento. Ler e, após algum tempo – que pode variar entre minutos ou anos – esquecer. Também é possível tentar entender o que o autor “quis dizer por trás” da narrativa e especular baseado em teorias interpretativas as inspirações e anseios do autor.

Porém, assim me parece, existe uma forma de apreender o conto de um modo muito mais interessante. No exato momento em que você lê este conto, entra em contato com as potências profundas da Literatura. Através de narrativas acerca dos clamores dos habitantes de uma cidade do interior, do contato de uma diarista com um extraterrestre ou um vislumbre de uma alternativa a Guerra das Malvinas; você, leitor, expande seu campo de possíveis, vivencia realidades outras, preenche a sua vida de vetores ficcionais que pululam na acontecência. Em suma, a Literatura enriquece o seu outrora Mundo Literal.

Se você lê uma obra ficcional acerca de uma cidade que ainda não conhece, ela se torna, de fato, mais íntima. Se algum personagem lhe toca em profundos, vocês, de algum modo, se conhecem. Se leu acerca de voos pelos ares noturnos, algo de você esteve lá também.

O Mundo Literal é uma convenção em que os possíveis estão esgotados. Nele, a Palavra é pobre, sem grandes forças, a não ser para nomear um objeto qualquer destacado dela. Na Literatura, a palavra é a coisa, a palavra é eivada de cores, cheiros, sentimentos, emoções, sentidos múltiplos. No mundo literal, a palavra é oca. Na Literatura, a palavra e as suas mais inesperadas combinações, suas sintaxes mais estranhas, nos remetem para outra existência. O Mundo Literal é pobre de sentido, na Literatura, os sentidos são infinitos e imprevisíveis.

Você, leitor, emancipado pela palavra, cultivando a Literatura na vida, expalavra, despalavra, impalavra, repalavra ou melhor: adquire o dom de transpalavrar. Quando a literatura transpassa pelo Mundo Literal, este ganha muitas outras nuances e leis muito mais diversificadas. Os possíveis ganham coexistências paradoxais, você passa a estar e não estar nos locais, sentir ódio e amor ao mesmo tempo sem que isso se torne contradição e realizar tarefas até então improváveis e até impossíveis.

A essa altura você está pensando que isto é loucura. Não é bem assim. A “normalidade” é um espectro de possíveis ditado pelo Mundo Literal. Habitar apenas a perspectiva da normalidade é tão “louco” quanto habitar apenas o mundo dos sonhos. O Mundo Literal, a Literatura, o Sonhar coexistem na chamada Realidade. Acontece que o Mundo Literal, nos últimos séculos, decretou que as suas leis eram as únicas e que as leis do Sonhar e da Literatura eram subordinadas às dele.

Porém, as leis do Sonhar e da Literatura (e também de outros mundos) foram lentamente juntando forças, até rasgar o tecido existencial que guardava a preponderância do Mundo Literal. Não que as leis dele estejam frágeis. Pelo contrário. Nesse ínterim, as leis do Mundo Literal foram também se densificando. Mas agora, o campo está aberto. Cabe a você, leitor, nesse exato momento que lê este conto, permitir que as leis da Literatura fertilizem o mundo a sua volta, criando possíveis, coexistindo mundos. A Literatura convida o Sonhar e vice-versa, a pluralidade de mundos é uma possibilidade que você cria agora no seu ato mais potente de ler. O que médicos e especialistas entristecidos pelas leis únicas do Mundo Literal chamam de “loucura”, é na verdade, a proibição oculta das leis desses outros mundos. A alucinação é a vinda da Literatura, do Sonhar, para coexistir com o Mundo Literal, nada mais do que isso. Os sofrimentos que advém dessas alucinações são causados pelas leis enrijecidas. Você pode mudar isso agora, neste ato de ler. Não que seja fácil, mesmo em pequena escala. É menos uma brincadeira literária no melhor estilo de Borges e Calvino, e mais uma transrealização no estilo Philip K. Dick e Jodorowsky.

A Realidade está em profunda transformação. Muito do que a Literatura foi produzindo ao longo dos tempos, foi, lentamente, penetrando no Mundo Literal, que racionaliza dizendo que ela estava intuindo as mudanças que eram naturais e inerentes ao Mundo Literal. Não é bem assim, a Literatura foi, ao falar de foguetes, autômatos e ciborgues na virada do século XIX para o XX, instaurando lentamente as sementes do seu mundo no Mundo Literal. Só que as leis estão mudando. As membranas entre mundos estão cada vez mais frágeis. Mas a resistência ainda é deveras considerável. Ainda assim, o Mundo está mudando para Mundos.


E você?

2 comentários:

arturo disse...

interessante a proposta...

Em grande estilo, um convite ao convite! Uma atitude experimental que flerta com a possibilidade do experimento que devém (sempre vem) de outrem.

Quem vem lá? Alguém que gostaria de ter sido convidado, apenas. Esta tal porta estreita que (a)guarda um fora...
"Que porta!?"
"Não sei!" "Há de haver! Não me convidariam por nada...

Me pareces reticente em devir...

dev(o?)...dev(venham até mim!)

...Fico pensando...
Parado ante a janela, flerto com quem passa...
Fito o meu pensamento no reflexo do vidro...

Vejo por que paro.

digo: ""devo ir?""

penso... "que venham e nos vamos!"

penso ante a janela...

penso...

Anônimo disse...

O devir está, não o do transpalavrar onde todo mundo procura, mas o do literal. Não, o problema é a procura por ele, devir não se procura.