Druam

Druam tende a estar sendo uma experiência "ficcional" em devir. Os contos têm sua ressonância conceitual nos blogs "Cosmos e Consciência" e "Oniric Ontology". O atrator de ambos é Nelson Job?

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job

Livro "Ontologia Onírica" de Nelson Job
Livro de Nelson Job que relaciona os saberes construindo uma nova apreensão dos sonhos com desdobramentos para para a acontecência. Para mais, clique na capa.

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28.3.10

02

Job se lembrou de um poema de Borges:


Ein Traum

Sabiam-no os três.
Ela era a colega de Kafka.
Kafka a tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras.
Sabiam-no os três.
O homem a contestou: Se pecamos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais nada na terra.
Kafka disse para si mesmo:
Agora que se foram os dois, fiquei só.
Deixarei de sonhar-me.



O poema ressou e remeteu a um encontro: eis que conversavam o filósofo, o xamã, o físico, o budista, o mago e o artista. Por diversas vezes, o encontro não foi frutífero. Porém, neste momento, uma profunda ressonância ocorreu entre eles e o diálogo foi, então, profícuo.


O filósofo disse:

- Tudo muda. Inclusive a mudança. Costuma-se olhar a mudança do ponto de vista de alguém que observa o rio de longe. Mas nós não estamos apenas a observar o mundo, nós somos o mundo. Sendo assim, a melhor forma de se conceber a mudança é olhar o rio de dentro, durante a confluência de rios.


O xamã tomou a palavra:

- No princípio, era o homem. Depois vieram as pedras, as plantas e os animais. A pedra vê outra pedra como homem. A planta vê outra planta como homem. A onça vê outra onça como homem. A onça vê a zebra como filé, o peixe como onça d’água e o homem como onça. As pedras e as plantas são nossas maiores professoras, pois estão aqui no mundo há muito mais tempo.


O físico, mesmo que atônito, se pronunciou:

- No micro-mundo, das partículas sub-atômicas, um elétron, por exemplo, pode estar em vários estados simultâneos, como se (caso eu fosse um elétron) eu estivesse aqui, em casa e no laboratório ao mesmo tempo. Mas, se alguém aqui me vê, os outros dois desaparecem. Parece que as partículas são tímidas: multiplicam-se os estados quando ninguém as vê, se tornando apenas um quando alguém vê. Além disso, caso elas esteja sintonizadas (ou como nós, os físicos, costumamos dizer: emaranhadas) o que acontece com uma em qualquer lugar do universo, a outra sente, simultaneamente.


O budista, muito calmamente, disse, como se recitasse um mantra:

- Tudo é impermanente. O homem passa, o mundo passa, as terras passam, o cosmos passa. Nada permanece. Todo o nosso esforço é para conceber essa impermanência e agir de acordo com ela.


O mago, meio que dizendo pra ele mesmo, murmurou:

- O que está aqui também está no cosmos, existe uma profunda relação invisível entre todas as coisas. Tudo vibra e tudo é mente. Existe mente em qualquer coisa, em graus diferentes de complexidade, de densidade.


O artista, meio desatento, mas ligado em momentos que o marcavam, declamou:

- A vida e arte são uma só. A arte prolonga a vida no corpo e para além do corpo. Arte é uma prática inconstante, selvagem, que tira a vida do clichê, mesmo que isso cause desconforto. Provoca uma nova forma, nunca antes experimentada, de ver, de sentir, enfim, de ser o mundo. Mundo este que se transforma sendo ferramenta e, ao mesmo tempo, obra da arte.


Nesse encontro, os discursos de cada um tocaram profundamente um ao outro. Foram tomados por uma curiosa vertigem, que era ao mesmo tempo gostosa e incômoda. Conversaram longamente, estabelecendo pontes entre suas práticas.


O filósofo logo identificou a mudança com a impermanência do budista. O físico disse que as partículas elementares também eram inconstantes e todos disseram que essa característica era uma espécie de arte, mas a arte da vida, na vida. O mago disse que, se tudo tinha partículas, mas formava o mundo macro, tal informação corroborava com a sua conectividade entre as coisas e o físico concordou, principalmente quando o bruxo disse sobre a vibração, pois o físico acreditava que todo o cosmo vibrava, e dessa vibração nascia todas as formas. O xamã lembrou que, porque tudo é conectado, ele pode fazer o contato do homem com espírito da pedra, da planta e da onça, e que o grande espírito brinca e, com isso, faz todas as coisas mudarem.


O filósofo, o xamã, o físico, o budista, o mago e o artista conversaram animadamente sobre o fato que todos concordavam que o cosmos mudava, mas cada lugar no cosmos possuía aspectos de todos os outros, conectando-os. Viver no cosmos era bailar na tempestade.


Sentiram que falavam de pontos de vista muito semelhantes e que, se haviam diferenças, era porque operavam em diferentes aspectos do cosmos, cujas práticas diversas eram a evidência da mudança do cosmos, e eles também se sentiam agentes desta mudança.


Todos vibravam, inconstantes, selvagens, alegres. A vida pulsava entre todos os átomos e espíritos, sem exclusão. Já não eram adversários, cada um em seu saber, agora relacionados. Eram emanações, cada um em todos os outros, em um jorro da mais sublime arte cósmica.

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