Druam

Druam tende a ser uma experiência "ficcional" em devir, escrita por Nelson Job, pesquisador transdisciplinar, autor do "Livro na Borogodança", do romance "Druam", entre outros. Site: www.nelsonjob.com.br

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2.6.10

03. M.

— Morra! Você não sabe as maravilhas de uma vida eterna! Imagine encontrar com sua querida vovozinha, seu pai que você nunca conheceu, sua esposa que foi-se no parto, seu pobre filhinho abortado… E, de quebra, você conhecerá pessoalmente os grandes nomes da humanidade…

Surgia então Beethoven, Chaplin, Shakespeare, da Vinci e Einstein conversando alegremente.

— Não perca tempo! Morra agora! Ligue para o número que está na sua tela. E lembre-se: chega de contas, chega de doenças. Só o paraíso! Aproveite! Preços promocionais iguais a este, só no outro mundo! Garantimos sua morte indolor!

Anotou o número e desligou a TV. O próximo programa era entediante. Comeu mais um pedaço de pizza, que estava com muito catchup, um pouco azedo. Bebeu um refrigerante, restava algum gás ainda. Soltou um arroto na escuridão e ficou meditando enquanto examinava o nada no teto. O descascado da tinta parecia formar um sorriso de deboche. Lembrou de um filme de animação visto quando criança. Olhou para o jornal espalhado na poltrona e com algum esforço leu uma manchete que informava sobre tráfico de drogas utilizando menores.

Suspirou longamente. Coçou o rosto que fazia um barulho irritante de barba por fazer. Olhou para o número que anotara e discou.


— Boa noite! Além-Vida S.A. Deseja alguma informação?
A voz da mulher era de uma falsa empolgação evidente.
— Eu… Vocês fazem o serviço hoje?
— Sim senhor, muitas pessoas desejam falecer domingo de madrugada.
— Podem vir, então.
— Que tipo de falecimento o senhor deseja?
— Você sugere algum?
— Bem, nós temos falecimento por veneno, que é o nosso “best-seller”, além de câmara de gás portátil, cadeira elétrica (o choque é rapidinho), podemos decapitá-lo, quer dizer… É para o senhor mesmo?
— É.
— Podemos decapitá-lo, temos inclusive roupas que sugerem a época da Revolução Francesa. O senhor apenas precisa fornecer o seu tamanho.
— Olha, o que for mais rápido, então…
— Tudo bem!!!
— O endereço é…
— Pode deixar que o computador já registrou pelo telefone.
— Vocês aceitam cartão?
— Nããão…eh-eh! Só aceitamos dinheiro vivo e adiantado!
— Certo, podem vir, então. Em quanto tempo chegam?
— Em meia hora ou, em caso de atraso, o senhor pode indicar mais alguém para falecer gratuitamente.
— Não, não. Estou esperando.
— Boa noite, senhor!
Desligou. Olhou novamente para o “sorriso” no teto e este lhe soou ainda mais debochado.
— Tem certeza que deseja fazer isso?
Olhou lentamente para o canto da sala e avistou uma garotinha em manto negro aparentemente de seda. Era muito pálida. Ficou imaginando como ela entrara ali, mas depois abandonou o exercício. Não fazia sentido tal esforço, a esta altura.
— Não, mas vou fazer.-respondeu, então.
— Por quê? Porquê escolher o fim já?
— E viver? Pra quê?
— Ela não tem sentido pra você?
— Ela quem?
— Você sabe… Ela.
— A vida?
— Isso.
— Porquê o interesse?
— Digamos que de onde eu venho, este aumento significativo de “fins” tem acarretado problemas.
— Me desculpe, mas eu não tenho nada a ver com seus problemas.
— Tem.
— Olha aqui, eu não tenho que dar satisfação pra ninguém. Me deixe morrer em paz.
— Não há alguém querido que você deixará?
Começou a achar estranha aquela conversa. Como em minutos estaria morto, se permitiu responder a aquela pergunta:
— Minha mãe já…
— Se foi, isso me consta, mas o seu pai está vivo.
Imaginou como ela sabia disso, mas nada importava agora.
— Nós não nos falamos há anos. Ele é um velho estúpido.
— Uma namorada, alguém…
— Não. Minha ex-noiva me deixou há um ano e meio. Ela queria alguém mais ambicioso.
— Amigos?
— Conheço algumas pessoas. Estranhamente elas se afastam quando se está numa pior. E nunca tive uma conversa muito sincera com eles. Aliás, quando tive, eles deixaram de ser “amigos”.
— Mas nada do que você faz lhe dá algum prazer? Seu trabalho, um hobby?
— Ser caixa de banco dá prazer a alguém? No início até que é bom, entra dinheiro, mas depois você se acostuma com aquele padrão de vida e aí? Agüentar aquelas velhas chatas que fazem questão de centavos, ser assaltado e sofrer ameaças terríveis do assaltante quando se demora… Ficar contando, contando, preenchendo… É uma tortura diária, isso sim.
— Lazer, não existe nada…
— O quê? Já tenho uma cirrose de tanto beber. Drogas não dá, eles percebem no trabalho, eu já quase perdi o controle...
— E as artes, como a literatura, por exemplo?
— Ler, pra mim, só piorou as coisas. A literatura muitas vezes diagnostica a podridão humana e não dá alternativa. Isso pra quê? Pra constatar o horror humano?
— Acredito que você tenha lido os autores que eu inspirei… E o cinema?
— Os filmes me dão asco. Até parece que aqueles enredos que se vê na tela tem algum teor de realidade…
— E os filmes necessitam de realidade?
— Não, não necessitam… Mas aquela estupidez repetida constantemente cria uma espécie de “verdade”. E quando “retornamos” pra vida? O que temos? Frustração. Os filmes de repercussão dão uma receita de felicidade vã, que funciona apenas na tela.

“Filmes de repercussão momentânea” ela observou para si. Tentou mais uma vez:

— Música?
— Música? Eu escutava todo o tipo de música…— apontou para uma pilha de CDs empoerados na estante — Elas pararam já a algum tempo de me dizer qualquer coisa.
A suposta garotinha não se abalou com o discurso dele. Curiosamente, continuou a insistir.
— Mas sempre vai existir o sorriso de uma criança.
Ela ligou a TV onde passava exatamente um comercial onde havia bebês como garotos-propaganda. Ela, explicativa, apontava o seu braço para a tela.
— Elas sorriem mesmo. Mas espere terem um pouco mais de consciência do mundo. Um mundo que ousou transformá-las em propaganda, por exemplo.


Ela arqueou as sobrancelhas e levantou o lábio inferior em cima do superior. Mostrava-se sem maiores argumentos. Algo se constatou em sua reflexão que não seria uma questão de mostrar o que é valoroso no mundo. Aliás, essa nunca foi a sua especialidade. O que se evidenciava naquela situação era um olhar tendencioso dele, que desconstruía as possíveis “maravilhas da vida” que ela sugeria.


— Parecia interessada em me fazer viver… — ele estava com um esboço de sorriso irônico nos lábios.
— Como disse, esses fins demasiados me preocupam. Por mais que deseje fins, preciso de alguém aqui para reiniciar o ciclo dela, senão…
— Ciclo dela quem?
— Você sabe…
— Hum. Da vida.
— Sim. Estou quebrando muitas regras lhe dizendo isso, mas o seu fim vai popularizar este serviço que você encomendou, é uma reação em cadeia…
— Sei.
— Me chamam, devo ir. Falei demais. Não tenho controle sobre o Acaso, mas é a única chance agora. Se tudo der errado… te vejo em breve.


Ele se deu conta que não fora educado. Havia perdido esse costume. Pegou a garrafa de refrigerante e ia oferecer. Quando olhou novamente para o canto da sala, ela não estava lá. A TV, novamente desligada. Era incomum tudo aquilo, mas estava cansado para pensar nisso.


Toca o telefone.


— Alô.
— Boa noite! Aqui é da Além-Vida S.A. Senhor, tivemos um probleminha. O encarregado de lhe fazer a entrega sofreu um acidente e a outra pessoa de plantão em sua região foi ajudá-la. O serviço vai atrasar algum tempo…


Parou o olhar no canto da sala e sentiu um ensaio de arrepio na nuca. Tentou em vão se convencer que seria o frio da madrugada. A sonolência o tomava vagarosamente.


— Olha… vou anular o pedido… Eu ligo depois, agora eu vou dormir.
— Tudo bem, senhor! Até breve! Boa noite!

Desligou. Dormiu. Estranharia o fato, ao se recordar, na manhã seguinte, de um sonho colorido, algo que não acontecia há muito tempo. E, em algum lugar, um ser com aparência de uma garotinha estava sorrindo de algo que seria, talvez, alívio. Porém alívio, seria para caracterizar uma emoção de alguém que possuiria um pouco mais de… vivacidade.

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